O Grito dos Excluídos: Um brado de fé pela vida dos últimos.

Ivenise Teresinha Gonzaga Santinon - Teóloga

O Evangelho de João (Jo10,10) nos afirma: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”. Essa máxima de Jesus Cristo deve direcionar o agir cristão concretamente, interferindo diante de supostas ações contrárias à vida. E o nosso cotidiano vem se mostrando um tanto contraditório, pois em nome da fé cristã há quem se mostra preocupado com morte. Desde o ano passado, em meio ao cenário pandêmico, muitas vezes se depara com fatos que expõem crises humanitárias, onde claramente se vê que a vida vem sendo esquecida. Percebe-se cada vez mais que pessoas não conseguem se sustentar, que a terra geme e grita de dor. E Deus pede o nosso grito!

É nesse contexto, que mais uma vez o 7 de Setembro, simbolicamente, o dia do Grito dos Excluídos (promulgado em 1994 a partir do processo da 2º Semana Social Brasileira da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil- CNBB, e realizado pela primeira vez em 7 de setembro de 1995, em 170 localidades) tem como lema “A vida em primeiro lugar”. É um momento de celebrar a fé de uma forma diferente, de ouvir os gritos das pessoas desconsideradas na socie dade, coisa que nem sempre ocorre. É hora em que o significado de gritar está para além do falar alto: significa dar voz ao desconsiderado, ouvir, falar e agir além dos templos. E quem espera uma mudança em meio à atual crise humanitária são as populações mais pobres. São aquelas que mais sofrem e que neste ano da 27ª edição do Grito dos Excluídos esperam que alguém concretamente se lembre delas.

Aqui vale perguntar: o que estamos fazendo concretamente nos âmbitos sociais em que atuamos? A resposta é: vemos cotidianamente várias ações em prol da vida, mas estas não são suficientes. Há uma defasagem nas políticas públicas, há um negacionismo científico que reproduz comportamentos conformistas e há um retrocesso de ações sociais em âmbitos comunitários.

Os evangelhos nos ensinam que precisamos atuar frente a esses problemas e essa é tarefa da Igreja! Se somos Igreja, como entender isso e como proteger os mais vulneráveis? Há várias Encíclicas Pontifícias que há décadas nos ensinam sobre o que devemos fazer e essas alicerçam há décadas a nossa Doutrina Social da Igreja, publicada em 2004. (Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html )

Estas instruções doutrinais indicam o dever da Igreja em agir na vida das pessoas “sem voz”, transformando as condições a que estão submetidas. E isso nem sempre acontece nas igrejas: Por que não há muita gente engajada nas pastorais sociais nas paróquias tanto quanto há em participações em movimentos e festas devocionais? Por que pessoas não se interessam tanto por serviços na Pastoral da Criança, da Saúde, dos Encarcerados, dos em situação de rua, entre outras?

A resposta talvez seja que a vida pessoal esteja tão atribulada que se esquece das injustiças sociais, das pessoas desconsideradas, das periferias existenciais apagadas e silenciadas. São os lugares em que a cultura de morte é mais valorizada para fins políticos. É onde se escancara a desigualdade social e diminui o engajamento social. Talvez aí seja mais fácil pedir a Deus uma mudança da condição pessoal do que gritar e agir pelos desconsiderados. Como a cultura de morte parece ter sido normalizada, a vida fica banalizada e não se nota também tal contradição pastoral.

A fé que praticamos não pode estar fora do atual contexto dramático em que se vive. Deve dar voz à ciência e ouvido ao grito pelos excluídos. E ao gritar, novas portas podem se abrir para novas consciências eclesiais e sociais. Não se pode mais negar a vida, seja nos gestos simples ou nas falas eloquentes; seja no grito dos bravos ou no silenciamento dos excluídos. Um grito em favor dos mais vulneráveis faz eco neste 7 de Setembro. É um grito em favor da vida e que sai das bocas de quem professa os evangelhos. Essa máxima de Jesus Cristo em favor do pleno viver para todas e todos é o grito de Deus que clama por justiça e pela vida.