LIÇÕES QUE PODEMOS TIRAR DA PANDEMIA

Aparecido Soares de Alcântara Filho¹

Transcorrido o longo tempo durante o qual fomos compulsoriamente colocados em isolamento social provocado por uma ameaça que trouxe consigo angústias, incertezas, dores e perdas irreparáveis, aos poucos assistimos a vida dando sinais de retorno à normalidade. O que muitos se perguntam é se retornaremos a um normal marcado pelas mesmas características de antes da pandemia ou se de fato estaremos diante de um novo normal. A resposta a essa questão talvez não seja assim tão simples, visto que certamente a situação de excepcionalidade vivenciada nesses longos meses foi capaz de provocar rupturas nos padrões comportamentais e valores de muitas pessoas, ao passo que pode não ter produzido nenhum efeito dessa natureza em tantas outras. Isso se deve ao fato de que enquanto muitas pessoas possuem uma predisposição para aprender com todos os eventos da vida, tirando deles o máximo de proveito para seu crescimento pessoal, outras estabelecem com a vida e seus eventos uma relação de superficialidade, situação que faz com que os revezes da vida pareçam não lhe afetar a ponto de produzir reflexões, muito menos mudanças.

Observando o cenário atual à luz da psicanálise podemos afirmar que possivelmente ninguém passe por ele sem ser afetado de alguma forma. O que ocorre é que para alguns indivíduos os efeitos são mais perceptíveis talvez porque, de forma consciente, eles procurem nortear suas percepções e atitudes com vista a subtrair de qualquer evento, mesmo os difíceis e dolorosos, os elementos que possam servir para sua melhoria pessoal. Existem outras pessoas cujas atitudes e emoções atuam de maneira obediente aos seus instintos, procurando apenas se esquivar dos eventos que as impedem de viver manifestamente seus desejos presentes. Daí a fuga nos mecanismos de defesa ou mesmo através das transgressões das orientações, como as realizadas pelas autoridades sanitárias durante o período da pandemia, por exemplo. Para essas pessoas é provável que a sinalização de abrandamento da gravidade que estamos começando a perceber soe como um sinal verde para partir em direção a uma busca desenfreada para aproveitar tudo aquilo de que fora privado, a pretexto de recuperar o tempo perdido. Analisando com maior propriedade os indivíduos nessas condições, observamos o quanto eles podem estar se esforçando para preencher um vazio existencial que está ecoando dentro de si. Infelizmente a pressa por viver pode comprometer a qualidade daquilo que se está fazendo, por impedir o indivíduo de sentir verdadeiramente todas as vertentes que uma experiência é capaz de lhe proporcionar. Assim, ao invés de sentir relaxamento e bem estar, esses indivíduos têm maior probabilidade de verem aumentar em si a ansiedade e a sensação de vazio, seguida pelas angústias dela decorrentes.

Embora não seja desejável que busquemos deliberadamente dor e sofrimento com o intuito de alcançar maior crescimento interior, é aconselhável que façamos um esforço para aproveitar as oportunidades que esses acontecimentos nos oferecem para nosso aprimoramento existencial, através do desenvolvimento de habilidades que nos preparem para enfrentar desafios futuros. Semelhante aos atletas que enfrentam treinamentos rigorosos em seus preparativos para as competições difíceis, também nós precisamos de treinamentos para desenvolver algumas habilidades que servem como fundamento para que tenhamos uma vida melhor e mais saudável. Dentre as habilidades que os últimos acontecimentos nos possibilitaram desenvolver, podemos aqui destacar três delas.

A primeira é a resiliência que pode ser entendida como a habilidade de superar situações adversas e se adaptar a novas realidades, transformando experiências negativas em aprendizados para a vida. Nesse sentido ela nos capacita ao desenvolvimento de atitudes otimistas guiadas pelo sentido da realidade. Ao conseguir entender a complexidade da situação vivenciada, as pessoas resilientes conseguem desenvolver as condições necessárias para enfrentar outras situações semelhantes no futuro, tornando-se mais capacitadas para o enfrentamento dos muitos revezes que a vida lhes impuser.

A segunda habilidade diz respeito à capacidade de ressignificação diante dos acontecimentos que vivenciamos. Ela consiste sempre no melhor caminho a se seguir diante de experiências negativas ou traumáticas, uma vez que através da sua prática podemos encontrar saídas nos momentos em que nada parece nos consolar. É ela que nos faz olhar para outras possibilidades quando achamos que só existem coisas ruins para extrair das dificuldades que estamos enfrentando.

Por fim, não menos importante que as habilidades anteriores, podemos citar a empatia que se caracteriza pela capacidade de estar inclinado a alguém, se constituindo na tentativa de sentir a emoção que o outro está sentindo, entendendo suas dificuldades sem fechar os olhos para a possibilidade de acolhê-lo e auxiliá-lo em seu sofrimento. Através dela pudemos testemunhar os inúmeros gestos de solidariedade desenvolvidos pelos brasileiros em relação aos diversos tipos de sofrimento que tantos enfrentaram.
Para aqueles que conseguiram desenvolver esse olhar diferente para a fase que atravessamos, certamente a volta à normalidade não significará um retorno à mesma condição existencial de antes. E você, já parou para pensar quais foram as mudanças que esse período lhe provocou? Como será o seu retorno à normalidade?

¹ Psicanalista e Filósofo Clínico.
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