Quais razões nos levam a celebrar a Eucaristia?

Igreja e Pandemia. Parte 2.

Por Ivenise T G Santinon

O momento atual trouxe à tona algumas questões sobre liturgia, ao ser publicado pelo Papa Francisco na sexta-feira (16/07), o motu proprio “Traditionis custodes”, sobre o uso da liturgia romana anterior a 1970. Depois dele ter ouvido bispos do mund o inteiro, tal documento foi acompanhado de uma carta na qual ele explica as razões da sua tomada de decisão. Francisco certeiramente repassou a responsabilidade de regulamentar as celebrações com o rito pré-Concilio Vaticano II para o bispo. Explicando melhor: os padres não podem mais celebrar missas com linguagens não inteligíveis pela comunidade, mesmo que achem bonitas. As leituras devem ser "na língua vernácula" utilizando traduções aprovadas pelas Conferências Episcopais. Vide em https://www.cnbb.org.br/p apa-francisco-publica-novas-normas-sobre-a-missa-antiga-maior-responsabilidade-ao-bispo/?fbclid=IwAR2xfPl5sQ-YTnreKC7Ai7Lbx-5dIPqU5TW0hdBNBDjBjJPXTzhkxe5BULk. O bispo deve conhecer e se certificar dos grupos que celebram com o antigo missal, contrariamente, à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II (Constituição Sacrossantum Concilium).

Diante dessa decisão papal, perguntas de ordem litúrgica têm surgido com frequência e parece que há quem esteja mais preocupado com questões ritualísticas do que com os aspectos pastorais e comunitários. São pessoas mais alinhadas com a estética mais do que com a ética cristã. Tem-se percebido que muitos viraram espectadores de liturgias consideradas belas e que, mesmo sem entender o que é cantado ou recitado, insistem em participar delas por acharem diferentes. Nas mídias e redes sociais católicas há quem esteja mais preocupado com a assiduidade nos templos do que com a celebração da fé no mistério pascal e com o real significado eucarístico. Com frequência se vê comentários e comportamentos que nos envergonham, são os espectadores das missas que estão tanto dentro quanto fora dos templos.

Tendo isso se agravado em tempos de pandemia, a teóloga paulina Ir. Penha Capanedo, que conosco faz parte do MpvM – Ministério da Palavra na Voz de Mulheres, tem oferecido semanalmente roteiros para celebrações nas casas. Está disponível em http://www.ihu.unisinos.br/182-noticias/ministerio-da-palavra-na-voz-das mulheres/574176-o-ministerio-da-palavra-na-voz-das-mulheres-2. A Ir. Penha diz: “essa experiência, digamos, forçada pela pandemia, aponta para um futuro, que já se faz presente, de uma Igreja que redescobre formas concretas de exercer o sacerdócio comum dos fiéis, na vida e na liturgia. Oxalá a experiência de celebrar no restrito ambiente da casa, nos devolva definitivamente o imprescindível da participação efetiva e ativa, e livre a Igreja de tratar o povo como mero espectador (Cf. SC 48).”

Há exatamente um ano ela escrevia sobre lindas experiências populares como a leitura orante, o ofício divino, a meditação, entre outros. Esse excelente artigo pode ser encontrado em: http://portaldascebs.org.br/2020/07/18/celebrar-a-fe-em-tempo-de-isolamento-social-por-penha-carpanedo-discipula-do-divino-mestre/

Uma fé madura leva as pessoas a celebrar a eucaristia em diferentes âmbitos pastorais, sobretudo celebrando a vida ao ser solidárias com os pobres e estando "perto” das dores da fome. Isto requer mudança de mentalidade eclesial, pois nas Igrejas muitas vezes se depara com uma fé que não é a dos Evangelhos.

Há a necessidade de se aprender viver a fé sem um controle de líderes, de regras ou de competição entre o que é mais belo entre grupos. Implica se libertar das amarras do monitoramento pastoral constante, sem medo de “punições” divinas. Aí se pergunta: o que leva as pessoas a celebrar a eucaristia em linguagens não entendidas? Falte talvez o traquejo científico na leitura bíblica, no entendimento dos ritos eucarísticos e na boa formação teológica das comunidades. Tomara que a decisão do Papa Francisco ajude a mudar esse panorama e a ressignificar o sentido da Eucaristia.