PERDÃO E AUTOPERDÃO: SEUS BENEFÍCIOS PARA A SAÚDE FÍSICA E MENTAL

Aparecido Soares de Alcântara Filho¹

Embora a prática do perdão não seja um exercício fácil, ela é fundamental para aqueles que desejam preservar sua saúde física e mental. Sentimos dificuldade em perdoar porque normalmente quando uma pessoa nos magoa ou nos prejudica ela provoca dores emocionais que facilmente nos colocam em um ciclo de raiva e ressentimento, despertando em nós a reação instintiva de desejar devolver com a mesma moeda o mal que julgamos ter recebido. Para reforçar ainda mais a dificuldade do exercício do perdão, contamos com uma cultura que normalmente nos leva a encarar essa atitude como um gesto de fraqueza, como marca de alguém que de alguma forma está fugindo do confronto. O problema é que quando não conseguimos perdoar alimentamos sentimentos que só interferem negativamente em nossa saúde física e emocional, razão pela qual é muito importante que lutemos contra nossa própria inclinação de manter o ressentimento, desenvolvendo hábitos que nos permitam lidar com essas situações de maneira funcional e salutar. Observe que o termo ressentimento (ato de re-sentir, sentir novamente) traz consigo a ideia de que a cada vez que pensamos em algo ou alguém que nos feriu, nos reconduzimos à situação que nos machucou, permitindo assim que ela continue a nos machucar.

Nesse mesmo patamar se localiza o autoperdão, que consiste na capacidade que o indivíduo possui para perdoar a si mesmo, comportamento que muitas pessoas também encontram dificuldade em praticar. Para muitas pessoas é mais fácil perdoar aos outros do que a si mesmo, sendo muito comum que fiquem remoendo os erros cometidos, se culpando por determinada atitude tomada, ou ainda por atitudes que deveriam ter sido tomadas e não o foram. Nessas situações elas costumam reviver a situação inúmeras vezes, procurando as possíveis falhas que lhe assegurem as razões para se sentirem culpadas. Outras ainda costumam relembrar cada palavra, cada gesto, numa tentativa vã de modificar o resultado que estão lamentando, reforçando assim, o sentimento de culpa que invade o seu ser. Mesmo as vitórias conquistadas por essas pessoas não costumam ser comemoradas, visto que o sentimento de culpa é capaz de produzir um comportamento disfuncional, gerando no indivíduo a crença de que ele não merece ser feliz, sequer celebrar qualquer conquista. Entrando nesse ciclo de uma vida sem cor, sem experimentar o gosto da felicidade e das realizações, mesmo que pequenas, a pessoa pode se transformar em alvo fácil para os agentes perturbadores da mente, manifestando-se assim a depressão, ansiedade, fobias e outros transtornos que comprometem sua vida como um todo.

É importante salientar que perdoar não significa esquecer, como se o resultado das ofensas ou qualquer tipo de prejuízo sofrido pelo indivíduo deixasse de existir de uma hora para outra. Até mesmo para que a pessoa possa se precaver contra futuras ações que lhe sejam prejudiciais, é bom que ela mantenha em sua consciência os eventos que lhe sucederam. O que deixa de existir com o gesto do perdão verdadeiro são os sentimentos negativos e seus efeitos que fazem tanto mal a quem os preserva. Pesquisas indicam que quem consegue adotar essa prática passa a obter muitos ganhos, não só para o próprio indivíduo quanto para quem convive com ele. Você já observou o quanto é difícil conviver com alguém que fica resmungando, fazendo observações negativas sobre os outros, ou ainda maquinando uma forma de se vingar, a pretexto de fazer justiça em relação a algo que lhe fizeram? Se for você a pessoa em questão, como fica sua convivência consigo mesmo?

Em relação às outras pessoas pouco podemos fazer para modificar sua forma de encarar a vida. Quanto a você, havendo a tomada de consciência de que uma mudança lhe faria bem, comece por entender que para conseguir perdoar verdadeiramente aos outros é necessário antes aprender a perdoar a si mesmo. O caminho será promissor na medida em que exista o desenvolvimento da consciência de que você tem um lugar nesse mundo, o que o torna merecedor de viver uma vida plena e feliz, independente de ter cometido alguns erros. Nesse sentido o autoperdão funciona como uma oportunidade que você se concede para construir uma perspectiva de futuro muito melhor, podendo fazer as coisas de forma diferente, libertando-se das amarras do passado que te fazem sofrer. O mesmo pode ser feito em relação às pessoas que de alguma forma nos fazem seus prisioneiros a partir das lembranças negativas que insistimos em preservar a respeito delas. Não foi à toa que ao ser indagado por Pedro sobre a quantidade de vezes que devíamos perdoar, Jesus não hesitou em responder que “devemos perdoar setenta vezes sete” Quantas vezes você praticou o exercício do perdão no dia de hoje?

¹ Psicanalista e Filósofo Clínico.
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