UMA IGREJA DOENTE SÓ NA PANDEMIA?

Por Ivenise Teresinha Gonzaga Santinon, Teóloga

O contexto atual de pandemia escancarou a desigualdade social e a fragilidade humana. Diante de tantas angústias, tristezas, descrenças e mortes diárias, quais razões nos levam a termos esperanças? Por que diante do alto contágio pela COVID-19, pessoas ainda não acreditam na pandemia e nos riscos que correm em não seguir os protocolos sanitários? Para podermos responder essas questões recorremos ao Concílio Vaticano II (1962-1965), na Constituição Pastoral Gaudim et Spes, a qual cita a necessidade da íntima união da Igreja com toda a grande família humana e ao Papa Francisco que, incansavelmente tem citado que a Igreja está doente, pois há muita gente que na prática diária, não é coerente com a fé cristã.

Na celebração do XXIX Dia Mundial do Doente, em 11 de fevereiro de 2021, ele não prestou atenção especial apenas às pessoas doentes, mas mandou uma mensagem às famílias e comunidades: “Penso de modo particular nas pessoas que sofrem em todo o mundo os efeitos da pandemia do coronavírus. A todos, especialmente aos mais pobres e marginalizados, expresso a minha proximidade espiritual, assegurando a solicitude e o afeto de toda a Igreja”.
Esse tema da doença eclesial já vinha sendo apontado pelo Papa Francisco há tempo. Inspirado no trecho do Evangelho, o papa aponta o que Jesus já criticava: a hipocrisia de quantos que dizem, mas não fazem (Mt 23, 1-12). Então falha a coerência entre o credo professado e a vida real, os riscos são graves. Jesus, para chamar atenção sobre o perigo da hipocrisia e da idolatria usa expressões fortes. Viver a lógica dos Evangelhos não é apenas repetição de fórmulas ou ritualização de idas ao templo e em eventos. A fé cristã nos obriga a amar o inimigo (Mt 5); ser o último para ser o primeiro (Mt 20); o menor é o maior (Lc 9).

Daí, o problema de responder a essas perguntas é que nos últimos anos alguns costumes públicos vem sendo reproduzidos dentro dos templos. Políticos populistas e negacionistas em muitos países — incluindo países democráticos como o nosso — têm desrespeitado deliberadamente normas científicas e usado o nome de Deus para reduzir a confiança das pessoas na ciência, na imprensa e nas autoridades públicas e religiosas. Há quem reza pelo próximo e desrespeita a vida dos vizinhos. Há quem semanalmente reza pelo Papa Francisco, mas desconsidera a sua palavra. Fica mais fácil copiar gestos e palavras de pessoas oportunistas que tentam nos governar em nome da fé cristã. Aí está o perigo da hipocrisia e da incoerência.

As premissas dos evangelhos para muitas pessoas revelam um Jesus mágico, só dos rituais. Ao invés das posturas diárias serem coerentes dentro e fora dos templos, isso não ocorre. As pessoas buscam os rituais religiosos e não conseguem ser cristãos fora dos templos. Vivem de incoerências. Esse aspecto contraditório tem acontecido com frequência no tempo de pandemia. Há quem não se incomoda com tantas mortes diárias pela COVID, se isola em casa no dia a dia, mas exige a abertura de templos. As pessoas parecem confusas, não sabem ao certo em quem acreditar e o que devem fazer. Titubeadas pela enxurrada de informações mentirosas, elas se perdem em teorias conspiratórias do WhatsApp. Se dizem crentes, mas reproduzem cegamente o que indicam alguns líderes, em nome de Deus.

Portanto, urge relembrar o princípio da nossa fé no Deus Criador, Uno e na pessoa de Jesus Cristo. Isso nos remete ao acolhimento igualitário e não excludente, de mulheres e homens, e na vida de fé para além dos templos. Nos faz perceber o outro e a outra como iguais, cuidando da natureza e dando prioridade ao coletivo. Não salvaremos a nossa pele se não nos salvarmos juntos. A duras penas, e em meio a tantas mortes, precisamos acolher verdadeiramente os ensinamentos dos Evangelhos e Jesus Cristo não estará apenas na nossa identidade e na profissão de fé recitada nos rituais. A nossa igreja está doente, pois a nossa crença deve partir de uma fé lúcida e coerente; deve estar além de costumes viciados de uma igreja doente; deve ser vivida cotidiana e preferencialmente a partir de homens e mulheres que vivem a sua fé a partir dos menores e dos últimos.