APRENDENDO A LIDAR COM O LUTO: UM PROCESSO NECESSÁRIO

Aparecido Soares de Alcântara Filho¹

Lidar com a perda de alguém é sempre muito difícil, representa momentos de muita dor e sofrimento. Quando sofremos perdas significativas ficamos propensos ao desenvolvimento de várias manifestações emocionais como raiva, ansiedade, culpa, além de nos enchermos de dúvidas em relação ao futuro, visto que o abalo em função de uma perda importante é capaz de nos fazer sentir como se o nosso próprio chão nos fosse tirado. O resultado imediato desse turbilhão de emoções que acomete o enlutado normalmente é que ele se afaste das pessoas do seu convívio, se fechando em torno de si mesmo e dos seus pensamentos, deixando inclusive de gostar das atividades que antes eram prazerosas, sobretudo se elas eram realizadas na companhia da pessoa que não pode mais se fazer presente.

É importante entender que o luto visto sob a ótica da psicanálise não se limita apenas àquele resultante da morte física em si, mas a qualquer enfrentamento das sucessivas perdas reais e simbólicas experimentadas pelo ser humano durante o seu desenvolvimento. Deste modo, ele pode ser vivenciado por meio de perdas que perpassam tanto a dimensão física quanto psíquica, abarcando situações relacionadas ao contexto de perda em geral, seja em forma do falecimento de um ente querido, da mudança de um papel social, da perda de uma possibilidade de futuro, ou mesmo a perda da liberdade como a experimentada por nós nesse momento de pandemia. É uma reação natural diante de algo que nos foi tirado.

Por se tratar de um processo e não de algo fixo em um determinado tempo, o luto atua lenta e dolorosamente sobre o indivíduo, impondo-lhe uma tristeza profunda, tendendo a afastá-lo de toda e qualquer atividade que não o ligue, mesmo que em pensamento, ao objeto ou à pessoa perdida. Por essa razão o indivíduo em estado de luto tende a desenvolver uma espécie de comportamento obsessivo em direção ao objeto da sua tristeza, o que o impede de se ocupar das tarefas ou das outras pessoas que o circundam. Por essa razão tanto quem assiste ao sofrimento da pessoa enlutada, quanto a própria pessoa que sofre, comumente se questiona sobre o tempo de duração da situação vivida, muitas vezes por se sentir impotente para prestar uma ajuda que seja efetiva. A resposta a esse questionamento é que não se pode determinar um tempo para o desenvolvimento de todas as fases do processo de forma universalizante, visto que cada pessoa o percorre de maneira única e particular. Mais vale aqui o respeito e a compreensão diante da dor manifestada por cada indivíduo.

Outro aspecto importante é o desenvolvimento da consciência de que, embora doloroso, o luto é uma experiência que precisa ser vivenciada e que qualquer tentativa de fuga ou de negação pode acarretar futuros problemas psíquicos capazes de provocar sofrimentos ainda maiores. Ao entrar no processo de fuga em relação ao luto o indivíduo normalmente realiza um deslocamento inconsciente da sua dor desenvolvendo alguns sintomas físicos como sudorese, dores inexplicáveis pelo corpo, insônia, ou outros sintomas que aparentemente nada tem a ver com o sentimento do luto em si. Pode acontecer também da pessoa entrar num círculo frenético de atividades com o intuito de reprimir o sentimento, na tentativa de não dar voz àquilo que o machuca. Tais saídas não são salutares nem eficazes, pois tira da pessoa a oportunidade de trabalhar o necessário processo da perda em cada uma das suas etapas:
1- negação, quando a pessoa não se permite aceitar a existência do problema;
2- raiva, marcada por revolta e inconformismo diante da situação de perda; barganha, quando o enlutado cria uma ficção de que a perda é algo que se pode reverter;
3- depressão, marcada pela conscientização, seguida de profunda tristeza e melancolia;
4- aceitação, que é quando a nova realidade é finalmente aceita e a pessoa entende que a superação da situação é necessária e que lhe fará bem.

Passado o período de dor mais aguda, embora ainda possa permanecer a marca do acontecimento, é comum que as pessoas recuperem a capacidade de tentar novamente, uma vez que a elaboração torna possível a retomada das boas lembranças do objeto amado que foram preservadas na memória. Dessa forma, os aspectos bons que foram preservados são tranquilamente revividos, contribuindo para a aceitação da perda. Em casos em que o indivíduo não consiga trilhar esse caminho sozinho é muito importante que ele procure ajuda profissional para que possa ser devidamente orientado e acompanhado nessa importante travessia.

¹ Psicanalista e Filósofo Clínico.
Contato: aparecido.alcantara@hotmail.com.br / (11) 99545-9007