INDIVIDUALISMO OU INDIVIDUALIDADE: A BUSCA PELO SENTIDO EXISTENCIAL

Aparecido Soares de Alcântara Filho¹

Verificamos em nossa sociedade um discurso cada vez mais forte em direção ao respeito e à valorização da nossa individualidade, como condição indispensável ao bom posicionamento existencial. Essa busca quando realizada de forma salutar se constitui em nossa principal aliada rumo à construção da vida saudável que desejamos. O problema se estabelece quando confundimos a individualidade com o individualismo. A individualidade é fruto de uma relação harmoniosa que o indivíduo estabelece entre ele e a sociedade e dele para consigo mesmo, na qual considera a premissa de que tanto ele quanto as demais pessoas, na condição de membros de uma aldeia global, são possuidores de direitos e deveres igualitários. Essa visão lhe permite olhar para si como possuidor de características próprias, permitindo ainda desenvolver uma visão mais apurada de quem ele é, compreendendo suas virtudes e dificuldades diante da vida, sem, no entanto, desenvolver o sentimento de inferioridade ou superioridade em relação às demais pessoas. Tal postura permite também que o indivíduo se perceba como produto e, ao mesmo tempo, responsável pela construção da sociedade ideal para se viver. O simples fato de desenvolver essa concepção pode proporcionar à pessoa um bem-estar emocional muito grande, tendo em vista que a vida ganhará contornos existenciais mais significativos, uma vez que existirá uma perspectiva que transcende a concepção solitária que os problemas e angústias cotidianas podem nos levar a adotar.

O individualismo por sua vez, é produto de uma concepção narcisista da vida, sendo desenvolvido pela pessoa, como resposta a um modelo de educação que possivelmente a colocava como centro da atenção familiar, fazendo-a acreditar que o universo e tudo que nele existe orbitava em torno dela e que tudo fora criado para a sua plena satisfação. Quando a criança não sofre os interditos necessários à sua boa formação, ela tem grandes possibilidades de se tornar um adulto egocêntrico e individualista. Pode ser ainda que o individualismo resulte de uma história de privação e sofrimento vivenciada pela pessoa, cujos registros inconscientes a fazem viver como se ela estivesse sempre carente de alguma coisa. Essa carência, pode se manifestar na necessidade exagerada de afeto, de reconhecimento social, de bens materiais, de consumo alimentar e demais vicissitudes, desenvolvidas com base na incapacidade de enxergar o outro como companheiro em sua trajetória pela vida. Em situações dessa natureza as relações estabelecidas são aquelas ditadas pelo utilitarismo, que tem como ponto de partida a vantagem que se pode tirar de uma determinada relação ou ação social, fazendo com que as relações se tornem superficiais, transitórias e vazias, visto que seu tempo de duração vigora enquanto uma das partes está tirando alguma vantagem delas.

Quando o individualista deixa de obter vantagem em uma determinada relação ele tende a migrar para outra mais promissora nesse sentido, não conseguindo, portanto, estabelecer relações duradouras e desinteressadas. Em um mundo marcado pelo imediatismo, pela transitoriedade e por relações com base na busca por satisfazer interesses particulares, esse modelo de relação pode até fazer algum sentido, embora traga muitos prejuízos a quem a pratica, tendo em vista que a vida construída com base em valores egocêntricos tende a produzir resultados que não levam à plena satisfação existencial, provocando assim desalento e vazio. Além disso, a visão individualista da vida contribui para a construção de uma ilusão de que o sujeito não depende de ninguém, ao mesmo tempo em que também o impossibilita de enxergar o sofrimento e as necessidades alheias, tornando-se insensível a elas, desenvolvendo ainda a tendência a supervalorizar suas próprias demandas, como se somente elas tivessem importância. Longe de produzir bem-estar emocional, ela potencializa aquilo que há de mais primitivo no ser humano que é o seu espírito ancestral de predador da sua própria espécie, o que destoa totalmente do modelo de ser humano que nossa sociedade evoluída requer.

O momento que estamos vivendo nos convida a refletir com honestidade sobre essa perspectiva, nos valendo inclusive do chamado para o exercício do acolhimento, escuta, abertura e comprometimento com a causa comum proposto pela Campanha da Fraternidade do presente ano. Que tenhamos sempre em mente que quando nos preocupamos com o bem-estar comum estamos nos preocupando com o bem-estar de todos, da mesma maneira em que quando um dos nossos semelhantes sofre algum prejuízo, naturalmente todos saem prejudicados.

¹ Psicanalista e Filósofo Clínico.
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