CELEBRAR A VIDA COM SIGNIFICADOS

Aparecido Soares de Alcântara Filho¹

Tendo em vista a proximidade de duas grandes datas festivas, gostaria de convidá-lo a refletir sobre a maneira como nos posicionamos mental e espiritualmente diante delas. Isso porque essas datas nos fazem vivenciar situações que nem sempre experimentamos no curso normal do ano e que podem trazer em si uma dualidade interessante, a qual mesmo que imperceptível, é capaz fazer o indivíduo transitar entre a euforia facilitada pelo clima de festas e tudo que o envolve e o desalento de estar concluindo um ano cujos resultados podem não ter sido os esperados por ele. Na linguagem da psicanálise dizemos que está havendo um conflito entre os elementos pulsionais que travam um combate incessante no interior de cada um de nós, propiciando-nos os prazeres da realização (que representa a vida), ou os desalentos da irrealização (que representa simbolicamente a morte).

Uma observação mesmo que superficial acerca do comportamento das pessoas nessas épocas, pode nos ajudar a perceber o quanto muitos comemoram o natal meramente capitalista, ditado pelo consumismo desenfreado, marcado pelos excessos tanto materiais quanto comportamentais, deixando transparecer o quanto a festividade foi deturpada em seu significado original. Dessa mesma forma, o ser humano possui uma tendência de deturpar o significado dos seus sentimentos, na maioria das vezes de forma inconsciente. Pode ser que ele chame de felicidade um sentimento de euforia passageira provocado pelas perspectivas de compras, presentes, consumo exagerado de alimentos e bebidas. Em situações de euforia normalmente perdemos a capacidade de ponderar sobre aquilo que estamos fazendo, agindo como se tudo fosse permitido, como se não houvesse o amanhã. Daí a importância de compreendermos que a verdadeira felicidade e realização é resultado de um processo, durante o qual juntamos as múltiplas possibilidade e acontecimentos que permeiam a nossa vida e que não depende de um único evento ou situação.

Em cenários assim, onde os sentimentos podem ser facilmente confundidos, é importante que fiquemos atentos à nossa própria condição emocional, cuidando também de ficar atentos àqueles que estão à nossa volta, de modo muito particular às crianças e aos idosos da nossa família. Um posicionamento de maior atenção e empatia para com aqueles que nos cercam torna possível a percepção acerca de como essas datas estão sendo vivenciadas por cada um, dando-nos condições para considerar as motivações e efeitos psicológicos que tais comemorações estão provocando neles.

Com relação às crianças, é sabido que elas aprendem muito mais pelos exemplos observados em nossas atitudes do que através daquilo que lhes ensinamos pela nossa fala. Dessa forma, aquelas que são educadas em lares cujas motivações comemorativas estão no consumo e nos exageros gastronômicos, estão mais propensas a formar uma visão materialista da vida, podendo ser conduzida a uma vida vazia de significado, quando procuramos compreendê-la sob uma perspectiva mais abrangente. Por outro lado, quando estimuladas a compreender o significado de cada evento para além da materialidade, essas crianças tendem a se tornar adultos melhores resolvidos existencialmente, tornando-se aptos a saborear todas as experiências da vida de forma mais positiva. Quanto aos idosos, é importante termos em mente que essa época propicia um cuidado especial para com suas condições emocionais, uma vez que lembranças de muitas situações ou pessoas que fizeram parte de seu passado podem vir à tona, potencializando assim o sentimento de tristeza ou depressão. Na idade em que se encontram é normal que eles se posicionem diante desses eventos de maneira menos entusiasmada, mais sóbria, o que não significa necessariamente que eles não estejam curtindo o momento. Quando desenvolvemos ações que propiciam o real acolhimento e inclusão dos idosos nas atividades desenvolvidas pelos demais membros da família, estamos contribuindo para que eles se sintam menos solitários, sentimento que já é comum, mas que normalmente é potencializado por essas datas.

Para finalizar gostaria de afirmar que não existe dádiva maior do que a possibilidade de sonhar e celebrar a vida. Estamos diante da oportunidade de recriar nossas esperanças de sonhar com um mundo novo e melhor para todos. Desejo que em seu Natal você e sua família possam conferir vida e significado a essa possibilidade.

¹ Psicanalista e Filósofo Clínico.
Contato: aparecido.alcantara@hotmail.com.br / (11) 99545-9007