DESIGUALDADE - POR QUE ESSE ASSUNTO INCOMODA TANTO?

Klênia Fassoni

Já faz algum tempo que este tema está na pauta dos assuntos a serem tratados por Ultimato. De fato, ele é tremendamente incômodo. Falar de desigualdade incomoda porque:
* Ela põe a descoberto um quadro que fere nossos olhos. Os dados chocam. Vemos aquilo que estava escondido, maquiado ou geograficamente afastado.
* Se não perdemos a capacidade de empatia e temos consciência de que Deus fez toda a humanidade à sua imagem, os dados nos levam às pessoas - crianças, jovens, mulheres, homens e idosos vivendo uma dura realidade, que eles não escolheram.
* Ouvir e falar sobre pobreza é mais suportável. A desigualdade, por sua vez, inevitavelmente implica comparação entre os que têm mais e os que têm menos.
* Comparações nos obrigam a refletir em que posição estamos: ainda que não tenhamos muitos recursos e oportunidades, certamente temos mais do que tantos outros. E isso interpela o nosso estilo de vida e o da nossa família.
* As comparações são denunciadoras e se estendem a continentes, países, regiões, cidades, pessoas, classes sociais, sexo, idade, etnia e, por vezes, às igrejas também.
* Ao tirar o foco da ética individual e colocá-lo na ética social, o tema nos leva a reconhecer que o mundo é resultado da ação não apenas de indivíduos, mas também de grupos. Daí chegamos à pergunta: qual é o meu grupo e o que ele tem feito para a sociedade?
* As exigências da ética individual - comum a todos os cristãos -, como generosidade, desapego, honestidade, justiça, compaixão, entre outras, são fortes aliadas no combate à desigualdade. Porém, o seu exercício para com os que não convivem conosco não brota em nós tão naturalmente.
* O tema demanda mais do que respostas individuais, e certamente Deus levanta pessoas para atuar nesse campo. A elas competem as tarefas de se manter informadas, lutar por causas mais amplas e propor reformas sociais, combatendo estruturas que levam à desigualdade. Essas pessoas normalmente nos incomodam. Nosso papel é acompanhá-las em oração.
* A ética do merecimento, tão estranhamente entre os que se sabem sem mérito e dependentes da graça, por vezes nos faz críticos dos que estão no polo negativo da desigualdade. Somos tentados à culpá-los por sua condição.
* A discussão sobre o tema está no olho do furação da polarização entre os que pensam de maneira diferente. Neste campo, não há unidade entre os cristãos.
* As soluções são complexas, e somos tentados a usar essa complexidade como uma desculpa para não agir.
* Provavelmente, o assunto importuna ainda mais os cristãos ricos. Aqui vemos um eco do ensino de Tiago sobre as riquezas: Muitas vezes Deus usa os humildes para expor o que está nos corações dos ricos e poderosos. Para os que estão abertos ao tratamento de Deus, esse caminho leva à vida, à transparência, ao crescimento e à libertação".
* Enfim, encarar o tema exige de nós uma resposta. E a resposta é sacrificial - somos convocados a nos "desinstalar", a sair do nosso conforto. A boa notícia é que podemos considerar tal desafio uma grande oportunidade.

A encarnação de Cristo - seu esvaziamento, o ato de deixar a sua glória, de "desinstala-se" - é a base da ação redentora de Deus e deve nos levar a seguir o seu exemplo em todas as áreas. A transformação em nosso modo de pensar e de viver virá de um novo entendimento sobre quem Deus é e o que ele requer de nós, compreensão esta que só pode vir dele mesmo.

A esperança que nos enche de alegria, temor a Deus e amor ao próximo está em Jesus, aquele que está acima dos principados e potestades. Ele já reina!

Fonte: Revista Ultimato - março/abril de 2020